Exposição “Na pena de Reis Gomes, a Ilha em Festa”: um convite à escuta da literatura madeirense

A Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura, através do Centro de Estudos de História do Atlântico – Alberto Vieira (CEHA-AV) da Direção Regional dos Arquivos, das Bibliotecas e do Livro, inaugura amanhã, dia 25 de março, às 17h00, a exposição “Na pena de Reis Gomes, a Ilha em Festa”.

Desenvolvida pela Secretaria Regional de Educação, Ciência e Tecnologia, através do Conservatório – Escola das Artes da Madeira, Eng.º Luiz Peter Clode, a mostra, dedicada à obra do escritor madeirense João dos Reis Gomes, propõe uma abordagem inovadora à literatura, colocando a escuta no centro da experiência estética e cultural. A exposição estará patente nas instalações do CEHA-AV, na Rua das Mercês, n.º 8, com entrada livre.

Partindo da premissa de que a literatura ultrapassa a palavra escrita, a exposição convida o público a descobrir de que forma o som, nas suas múltiplas manifestações, estrutura a narrativa e revela dimensões profundas da experiência humana. Assente numa perspetiva interdisciplinar que cruza literatura e música, a mostra evidencia como os textos literários podem ser entendidos como paisagens sonoras, desafiando o visitante a escutar a musicalidade, os ritmos e os ambientes acústicos que constroem significado, identidade e memória cultural.

Com especial enfoque nos contos «A Romaria do Monte» e «S. João da Ribeira», integrados na obra De Bom Humor, a exposição destaca a capacidade de João dos Reis Gomes para recriar, através da linguagem, a vivência das festas populares madeirenses. Entre cantares ao desafio, filarmónicas, foguetes e vozes coletivas, o som surge como elemento central de integração social, emoção e ritual. Em «A Romaria do Monte», a atmosfera é marcada pela improvisação e pela participação comunitária; em «S. João da Ribeira», o ambiente assume um carácter mais solene e devocional, associado à memória, à espiritualidade e à experiência coletiva das celebrações religiosas.

Ao revelar estes contrastes e complementaridades, a exposição evidencia uma estética da escuta profundamente enraizada na cultura popular da Madeira, onde o som não é apenas descritivo, mas verdadeira matéria narrativa. Instrumentos tradicionais, práticas musicais e expressões orais surgem integrados na escrita como marcas identitárias, contribuindo para uma leitura sensorial e imersiva dos textos. Assim, “Na pena de Reis Gomes, a Ilha em Festa” afirma‑se como um convite à redescoberta da literatura enquanto experiência viva, sensorial e intimamente ligada às práticas culturais que lhe dão origem.

A mostra organiza‑se em vários núcleos temáticos que aprofundam a relação entre literatura, música e cultura popular madeirense. O primeiro, dedicado ao autor, apresenta uma contextualização biográfica que inclui registos de nascimento e de casamento, cuidadosamente selecionados, uma árvore genealógica e uma seleção representativa da sua produção literária. Estes elementos permitem situar a trajetória de João dos Reis Gomes no contexto social e cultural da sua época, evidenciando a diversidade de interesses que marcaram o seu percurso e que se refletem na forma como recria, pela escrita, as tradições madeirenses.

Segue‑se um núcleo dedicado à Romaria do Monte, com uma explicação detalhada desta celebração emblemática e um conjunto de fotografias antigas que testemunham a dimensão social, musical e ritual da romaria. Este espaço dialoga diretamente com o conto «A Romaria do Monte», permitindo ao visitante reconhecer, nas imagens e descrições históricas, os ambientes sonoros e comunitários que o autor tão vividamente transcreveu.

O terceiro núcleo, centra‑se no arraial de São João da Ribeira, apresentando fotografias de época, descrições etnográficas e elementos que ilustram a atmosfera solene e devocional associada a esta celebração. Tal como no conto «S. João da Ribeira», o visitante encontra aqui um ambiente marcado pela espiritualidade, pela memória coletiva e pela força simbólica do som nas práticas religiosas madeirenses.

Juntamos, no final do percurso,  um mapa que identifica as festas religiosas já celebradas na altura de vida de João dos Reis Gomes, permitindo situar as celebrações descritas pelo próprio no contexto mais amplo das tradições do arquipélago e reforçando a diversidade das manifestações festivas madeirenses.

Para conferir textura e profundidade ao percurso expositivo, a mostra integra ainda um conjunto de peças históricas e etnográficas, entre as quais se destacam uma farda antiga da Banda Municipal do Funchal, um traje típico do folclore madeirense, instrumentos musicais de época e partituras antigas, incluindo a do Hino da Carta, referido na obra de Reis Gomes. Estes elementos estabelecem uma ponte direta entre a literatura e o património musical e performativo da Madeira, reforçando a dimensão sonora que atravessa toda a exposição.

Sobre João dos Reis Gomes

João dos Reis Gomes nasceu no Funchal, na freguesia de São Pedro, a 5 de janeiro de 1869, filho de João Gomes Bento e Maria Gertrudes de Castro Gomes Bento. Foi casado com Maria Dulce da Câmara de Meneses Alves, com quem teve um filho. Faleceu na sua residência, na Quinta do Esmeraldo, em São Martinho, a 21 de janeiro de 1950. Ingressou no Regimento de Caçadores 12 com 17 anos, como voluntário. Em 1887, mudou‑se para Lisboa para frequentar a Escola Politécnica, onde iniciou o curso de oficial de Artilharia, transitando posteriormente para a Escola do Exército. Durante a sua formação, distinguiu‑se com as mais altas classificações, concluindo o curso da Arma de Artilharia e obtendo o diploma de engenheiro industrial.

A sua vida profissional dividiu‑se entre o exército e a docência. Permaneceu no quadro militar entre 1892 e 1917, ano em que passou à reserva. Paralelamente, iniciou a carreira no ensino em 1900, como professor provisório no Liceu do Funchal, onde lecionou Ciências. Em 1913, começou a lecionar na Escola Industrial e Comercial do Funchal, instituição que dirigiu entre 1929 e 1939.

Além das carreiras militar e pedagógica, destacou‑se como escritor e ensaísta, com particular interesse pela estética musical e teatral. Em 1913, levou à cena, no Teatro Municipal do Funchal, a peça Guiomar Teixeira, considerada pioneira na introdução do cinema como elemento cénico. No campo da filosofia das artes, publicou em 1919 o ensaio A Música e o Teatro, onde defendeu uma visão moderna e científica da música, rejeitando o elitismo artístico e defendendo a democratização da arte. A sua vasta produção literária inclui títulos como O Teatro e o Actor (1905), Histórias Simples(1907), A Filha de Tristão das Damas (1909), Acústica Fisiológica (1922), Forças Psíquicas (1925), O Belo Natural e Artístico (1928), O Anel do Imperador (Napoleão e a Madeira) (1934) e Casas Madeirenses (1937). Colaborou com periódicos de renome e dirigiu os jornais Heraldo da Madeira e Diário da Madeira. A Direção Regional dos Arquivos, das Bibliotecas e do Livro editou, em 2023 e 2024, a coleção digital Obra Completa de J. Reis Gomes, composta por 20 volumes.